quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Barbas da História

Por

Hoje, enquanto fazia minha barba, fiquei pensando o quanto uns simples pêlos no rosto eram (e ainda são) de uma importância tão grande na história do mundo.
Alguns acreditam que a barba tem o poder de distinguir o dito limpo do sujo, o puro do impuro e por aí vai.
Heródoto e suas barbas
 Na História, a barba, ora era valorizada, ora era discriminada dependendo da cultura de cada povo.
Nos tempos antigos, a barba era símbolo de status social. Quem a possuísse era considerado o todo-poderoso. Na Grécia, por exemplo, era comum ter barba e a prova disso são as estátuas dos grandes filósofos que aparecem sempre barbudos.
Isso até Alexandre, o Grande aparecer e acabar com a festa proibindo os seus soldados de ter barba por acreditar que atrapalhava nos combates diretos. Talvez o macedônio mudaria de opinião se vivesse na mesma era do general chinês Guan Yu, um dos mais famosos guerreiros da Era dos Três Reinos da China Antiga.
Era conhecido por ter uma barba longa e pelo que li a respeito, nunca foi atrapalhado por ela nas lutas que travou.
Na Idade Média, as coisas mudaram um pouco. Os católicos rasparam as barbas para diferenciar-se dos cristãos ortodoxos, confirmando assim a separação total das duas igrejas.
Mas aí me pergunto se não seria atitude contraditória dos católicos raspar a barba, se Jesus aparece barbudo nas imagens de todas as igrejas do mundo?
Vão saber o que pensavam na época, não é mesmo?
Nos séculos seguintes, a barba tornou-se um marco da vaidade masculina e logo veio a invenção do primeiro aparelho de barbear que se tem notícia.  Foi obra do francês Jean Jacques-Perret em 1770, que utilizou uma navalha em formato de T.
Mas foi um caixeiro-viajante norte-americano chamado King Camp Gillette que revolucionou o sistema de barbear que é feito até hoje por todos os homens e mulheres do planeta. Se bem que no caso delas são mais as pernas do que o rosto com algumas exceções circenses.
Ele percebeu a possibilidade de adotar lâminas descartáveis no barbeador e com a ajuda de um engenheiro de Massachussetts, William Nickerson, criou uma nova marca de lâminas que persiste até hoje, a famosa Gillette.
No século passado, a barba quase foi abolida da sociedade, devido a sua associação com o crime, com a sujeira e com a maldade humana.
Nas propagandas dos jornais da época, o personagem principal era rejeitado pela mulher e preterido pelo patrão, porque estava barbudo, aí bastava usar Gillette e pronto, a mulher o enchia de beijos e o patrão o promovia a um alto cargo na empresa.
 A barba só valorizou-se novamente no final do século XX graças aos homossexuais, que exibiam seus bigodes e cavanhaques sem nenhum problema e que teve no vocalista do Queen, Freddie Mercury, um dos representantes mais ilustres.
  Nos dias de hoje, a barba aparece de diversas formas. É associada tanto aos terroristas de todas as partes do mundo e aos governos tirânicos de alguns países muçulmanos que proíbem seus povos de raspá-los quanto a pessoas que buscam um visual mais alternativo, tendo como exemplo alguns ídolos do cinema, da TV, das histórias em quadrinhos e dos esportes que as usam como Wolverine os irmãos Pau e Marc Gasol, jogadores espanhóis da NBA.
Portanto, não coloque suas barbas de molho, porque temos muita história ainda por contar.

*Mário Gayer do Amaral é professor de história
e um dos autores do livro “A História dos Brapéis”.

domingo, 11 de setembro de 2011

Cena

Por
Gisa Brum


A plateia atenta acompanha a abertura das cortinas. No palco escuro conseguem perceber seis sombras estrategicamente colocadas. Duas no centro, duas à esquerda e duas à direita.

Luz amarelada incide no canto esquerdo. Vê-se um homem sépia de bigodes e elegantemente trajado. Calça de risca de giz, paletó, bengala, chapéu, colarinho engomado da camisa branca e gravata de laço. Pendente, no colete, uma corrente dourada que terminava em um relógio estrategicamente colocado no bolsinho. Ao seu lado, olhando para o chão, um menino, igualmente sépia, de boné xadrez, camisa clara, calças curtas presas por suspensório. Botinas pretas, meias brancas. Mal respirava ante a altivez do homem. Há uma aura sépia de amor e de cuidado.

Apaga-se a luz amarelada.

Luz acinzentada incide no canto direito. Vê-se um homem azincentado com um blusão de gola rolê branca, de calças boca de sino, jaqueta de couro e sapatos pretos. Cabelo penteado com gel formando uma leve ondulação na frente. Usa óculos escuros e parece mascar chiclete. Está com um cigarro aceso na mão. Ao seu lado, olhando para a frente, um menino, igualmente acinzentado, de calças curtas, camisa branca e colete de lã xadrez. Cabelo desenhado com gumex, confere-lhe um alto topete na frente que cai um pouco sobre os olhos e os lados são batidos. Masca chiclete e pisca para a plateia com um leve sorriso de canto de boca sob os sorrisos cúmplices do homem. Há uma aura acinzentada de amor e de cuidado.

Apaga-se a luz acinzentada.

Luzes coloridas incidem no centro do palco. Vê-se um homem colorido. Ele é forte e usa jeans, camiseta branca e tênis. Cabelo cortado com máquina 4 dos lados e 6 em cima. Não usa barba, nem bigode. Embaixo do braço leva o ipad e na outra mão um celular último tipo. Ao seu lado, olhando para todos os lados, um menino, igualmente colorido. Usa boné com a aba virada para trás, short, camiseta e tênis. Às vezes, concentra-se no jogo eletrônico, modelo novo, que traz nas mãos e em meio a bip-bips comemora os pontos acumulados, com gritos de incentivo do homem. Há uma aura colorida de amor e de cuidado.

Apaga-se a luz colorida.

Fecham-se as cortinas e dá-se o diálogo de emoções por encerrado. A plateia sai em silêncio, absortos nos pensamentos e lembranças, atuais ou distantes, boas ou ruins, saudosas ou insuportáveis que as imagens lhes causaram. Todos carregam, como brinde, algum fragmento das auras que circularam no ambiente cuidadosamente embrulhados em caixinhas douradas com fitas vermelhas entregue a cada um na saída da sala. Apagam-se as luzes do teatro. No palco, as seis figuras olham-se e despedem-se com um leve cumprimento de cabeça, caminhando em sincronia na direção da mulher translúcida que surge do escuro da cena com um grande álbum nas mãos. Cada dupla regressa para sua fotografia e assume a posição original. A mulher fecha o livro e sorri. Sabe da necessidade dessa troca de energias de tempos em tempos, afinal, ela é a vida.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Solidão

Por
Mário Gayer do Amaral



O dito sentimento me acompanha desde sempre.
Ando pela cidade e quando chego na praça, deparo-me com casais que namoram. Pais que brincam com os filhos. Outras tomam seu chimarrão ou sua cerveja despreocupadamente com seu grupo de amigos.
Quanto a mim, ando sozinho pelas ruas em busca de companhia e sigo em meu caminho solitário pela cidade, pensando com meus botões sobre o paradoxo da solidão.
A impressão que passa é que as pessoas procuram evitar a solidão de qualquer maneira, com medo de serem rotulados de diferentes ou loucas, no entanto, a sociedade está cada vez mais solitária em seus muros, suas grades e seus computadores.
É nesse ponto que o paradoxo se manifesta. Elas acreditam que têm muitas amizades, no entanto estão sozinhas em casa digitando siglas estranhas como Vc, Tb, Blz e tantas outras que não entendo. Amizades curtas, rápidas e abreviadas.
 Alguns rejeitam a solidão argumentando que ninguém é uma ilha e que necessitamos de amigos ao lado para sermos felizes, mas nem todos sentem-se satisfeitos, cercados de pessoas por todos os lados e desejam estar numa ilha deserta. Longe de tudo. Existem mesmo os chamados lobos solitários que abrem mão da companhia em busca de sonho, aventura e morte.
Estes são tipos duros. Durões. Acham que são rochas. São ilhas que nunca choram.  São movidos a adrenalina e vícios e partem atrás de emoções.
Concluí que talvez nós todos estejamos numa ilha deserta desde que nos entendemos por gente, afinal de contas, salvo exceções, nascemos sozinhos e mesmo que estejamos juntos dos amigos, da família e da pessoa amada, a qualquer momento da vida, sentimos a necessidade de ficar sós.
O cantor Paulo Diniz, em música de grande sucesso “As Estradas”, disse com exatidão:
           “Das estradas que o mundo tem, vou andando sem ninguém”.

Publicado no Diário Popular
em 26/06/11.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Coisas de criança

Por
Maria Izabel Arndt

-        Quem fez o mundo?
-        Deus  fez o mundo.
-        Deus é justo e bom?
-        Sim, justo e bom.

Este diálogo, repetido quase como um mantra  ressoa ainda como o badalar dos sinos de bronze daquela  velha e pequena igreja.  Sentia o coração bater na garganta, tal era o desejo sincero de saber: e quem fez Deus? Mas esta , eu sabia, era uma pergunta proibida. E eu não me atrevi...

Por isso o silêncio... Por isso eu , a repetir: Deus   fez o mundo... Deus é justo e bom.

Tinha oito anos, mais ou menos, e me preparava para a primeira comunhão. O Padre Libório, também respeitável comerciante da cidade, prestes a desaparecer, viria no final do ano para o Sacramento. E veio! Vestia sapato  branco, véu e uma pequena tiara (eu, não o padre). 

-        Eu , pecadora, me confesso... porque pequei muitas vezes...  respondi para minha mãe; briguei com minha amiga...   (Só? E se eu esqueci de algum? Será que menti?)

Não. Mentir era absolutamente impossível com o pai que eu tinha... Ele havia inscrito  em mim uma lista de pecados da infância (e de toda a vida) e colocado no seu topo a mentira. O  jeito era falar sempre a verdade!

Bem, se Deus existe e ele é justo e bom, sabe do meu esforço  para lembrar de todos os meus pecados. Tanto que, na dúvida, inventei um, não lembro  exatamente o que foi. Quando se trata de confessar, é melhor sobrar do que faltar...

Mas e a mentira? O que mereceria maior castigo? Esquecer algum? Ou inventar outro?

Enfim...confessados  os pecados, vividos e  inventados, o Padre deu  a penitência:

-        Reza um pai-nosso, dez  ave-marias , um creio em deus padre e não voltes a pecar!

Pecado é fazer isto com as crianças!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A casa estreita

Hoje em dia, é cada vez mais difícil encontrar uma casa assim. Mas naquela época a maioria das residências do centro da cidade seguia aquele mesmo padrão de disposição das peças: uma fachada estreita, de 6 a 8 metros, e um corredor comprido, ao longo do qual as salas e os quartos se seguiam uns aos outros. Uma pequena área de luz tentava prover um pouco de sol a nossas vidas, e, com certo exagero, chamávamos aquilo de pátio. Nele cabia todo o país da minha infância.
Não havia garagem. Os carros daquele outrora não tinham estas veleidades, de exigir uma peça enorme da casa só pra si, e de ter mais espaço do que os seus tripulantes. Tampouco tinham se tornado integrantes da família, aos quais se dedica especial devoção. Jaziam a noite toda estacionados na rua, na frente das casas daquelas poucas e invejadas famílias que os possuíam.
E ainda por cima havia janelas na casa. Por elas não entrava apenas o sol do crepúsculo, dourando os tecidos da alfaiataria do meu avô. A gente se debruçava nelas e ficava pouco acima do nível dos passantes da rua. Não havia recuo frontal, e a janela dava diretamente para a calçada. Meu avô largava o seu dedal e os seus alfinetes para conversar com os não raros conhecidos que voltavam do trabalho. Estranhamente, apesar de não motorizados, os viventes daquelas quadras sempre dispunham da calma e do tempo suficiente para uma conversa fiada.
Para a criança que eu era, a rua não era um lugar ameaçador, do qual eu tinha que ser protegido a todo custo. Atravessá-la não era o esporte radical que se tornou hoje em dia, e já aos seis anos eu caminhava sozinho os quarteirões que me separavam do meu colégio, sem que alguém tivesse a ideia de processar os meus pais por abandono.
Nas noites de verão, as bolas de futebol disputavam com as cadeiras o direito de ocupar o espaço nas calçadas. A noite era nossa amiga, e o mundo era jovem e alegre como nossos gritos de gol.
A casa estreita era o centro do mundo, o marco zero de onde partiam todos os sonhos, a moldura dos largos mundos a descobrir. Ela ainda está lá, existe ainda e por enquanto, mas, transformada em estabelecimento comercial, passa as noites vazia e solitária, e duvido que seja hoje tão feliz como naqueles tempos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sonhos

Por
Mário Gayer do Amaral
mariogayer@hotmail.com



           Tio, desculpa se o aborreço, só quero um pouquinho de sua atenção.
Não tenha medo de mim. Sou um menino que sonha nas ruas de uma cidade que não para nunca.
Fico nas ruas brincando com uma bola meio murcha sonhando algum dia ser Ronaldinho ou Neymar.
Quando a refeição que sobra dos restaurantes é jogada no lixo eu sinto que estou no paraíso apesar de lutar pela minha sobrevivência.
Sabe de uma coisa, tio, confesso que sinto falta de carinho de mãe, o abraço de pai e de um lugar quentinho pra dormir porque a calçada nunca foi berço pra mim.
Existe um dia, no entanto, que esqueço tudo isso e por breves instantes, sou igual a aqueles que vestem roupas de grife e que sem nenhum motivo me batem e ameaçam fazer coisa horrivel igualzinho o que aconteceu lá com aquele cara de uma tal Brasília, que nem sei onde fica mas dizem que é linda.
É o domingo que vou junto com meus amigos ao campo de futebol pra ver o meu time jogar e, apesar de me olhar com desconfiança e medo só porque visto uma camisa surrada de propaganda de refrigerante, alguns tios e tias deixam entrar junto com eles, mas pedem pra ficar quieto senão os “polícia” me expulsa do estádio.  
Vendo os jogadores entrarem em campo e serem recebidos com toda a festa da sua alegre torcida, me emociono mais ainda porque outro tio me deixou entrar junto com eles. Isso nunca vou esquecer.
Quando o jogo acaba, minha vida volta a ser o que era antes e sigo nesse caminho sem esperança, mas acredito que, algum dia, as pessoas não me vejam como alguém que cheira cola e pede dinheiro, mas como alguém que tem sonhos como qualquer um da minha idade.
Só peço uma coisa. Não vá embora senão os caras que vendem aquela “pedrinha que faz viajar” destruirão minhas esperanças.
Deixe-me sonhar.
Para terminar esta crônica, parafraseio aqui o cantor Paulo Diniz em sua música de grande sucesso As Estradas.
           “Das estradas que o mundo tem, vou andando sem ninguém”.

Publicado dia 24/06/11
Diário Popular

Terapia Literária - Com Márcio Ezequiel

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mário Gayer e David Coimbra

Mulheres

Por Mário Gayer do Amaral
Publicado no Blog do Coimbra


O universo delas é belo e imprevisível e de alguma forma conheço bem. Afinal, fiquei nove meses dentro de uma.
Encontrei em todas as fases da minha vida até agora, diversas moças, senhoras e senhoritas de todas as idades, raças, credos, gostos e sentimentos e confesso que isto é mais complicado do que imaginei sendo que esta complexidade vem desde os tempos remotos em que os rapazes iam em linha reta e se perdiam e as raparigas, por sua vez, iam em diversas direções e se encontravam.
Durante meus estudos, tanto no primário quanto na faculdade, alguns alfarrábios diziam que a história foi feita pelo “sexo forte” e que o “sexo frágil” era incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda do macho e ainda que seu “pecado original” desencaminhava os ditos virtuosos.
Que mentira absurda. Se fosse assim tão fácil quanto falam, porque então estudamos o comportamento feminino para tentar entendê-las e conquistá-las em jantares nos restaurantes e em encontros românticos nas praças?
É que, cá pra nós, quem manda de fato são elas e, mesmo sendo forçadas a ficar nas sombras por muito tempo, se destacam brilhantemente em várias áreas dominadas pelo sexo masculino e seguem conquistando seu espaço na sociedade com muita sabedoria, sensibilidade e competência.
Por exemplo, na própria oficina literária que faço parte, já são maioria.
No entanto, existem aquelas que são ainda forçadas a serem meros objetos dos homens em alguns lugares do planeta, perdendo sua própria identidade e liberdade.
Apesar de todo o mistério que as cercam, creio eu que é inconcebível visualizar um lugar sem charme feminino.
Atire a primeira rosa aquele que nunca se apaixonou por uma mulher.
Nunca devemos subestimar sua força. São os olhos e ouvidos de um mundo que é insensível aos seus apelos.
O que seria dessa crônica sem garotas? Nada alem de meras palavras vazias.
Por isso que digo com todas as letras.
Mulheres, o poder é de vocês.

sábado, 16 de julho de 2011

Sobre a meta-escrita

Semana passada, na nossa oficina, arrisquei falar em metalinguagem. A dificuldade para apresentar o conceito é quase uma redundância. Quer ver? Metalinguagem é um tipo de linguagem que explica a própria linguagem. Hein? É expressar alguma coisa sobre o meio de expressão pelo qual se expressa essa mesma coisa. Enrolado, né? Pois é assim. O palavreado se dobra sobre si para desdobrar o próprio palavreado - com o devido cuidado para não enrolar a língua.

Na literatura pós-moderna de nossos dias os escritores têm uma predileção por tratar da construção do texto no próprio texto. Machado de Assis foi precursor no uso da técnica. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo sobre as ideias fixas, o autor dialoga sobre a obra ao longo dela. “Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias.” Mais adiante sugere a frustração do protagonista, deixando um capítulo em branco. “Há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior.” Concorda, leitor?

Nas outras artes também temos boas aplicações. Quando o ator olha para a câmera e fala com o espectador sobre o filme, trata-se de metalinguagem. A rosa púrpura do Cairo, de Woody Allen, segue como bom exemplo. Quando João Gilberto canta "se você disser que eu desafino, amor..." além de desafinar pra dedéu, canta senão a metalinguagem.

AS MENINAS - DIEGO VELAZQUEZ
  Clique na imagem e veja versão de Picasso.
Na pintura há estudos bem intrigantes. O famoso quadro As meninas (1656), de Diego Velázquez, é fabuloso ao discutir-se na própria obra. Ao centro, de frente, figura a infanta Margarida Teresa de Habsburgo, filha do rei da Espanha, com suas damas de companhia, ensejando o título. À esquerda, em autorretrato, Velázquez aparece pintando uma tela virada, que não nos permite ver o que o artista imortaliza. Seu olhar é frontal, diretamente para nós, ou seja, para fora do quadro. Na parede ao fundo, um espelho mostra o reflexo do rei e da rainha, para além dos limites da moldura, apontando, segundo alguns historiadores o assunto retratado. Tá entendendo? Outra interpretação devolve as meninas ao papel central do quadro e o casal real estaria como observador da cena. Se o leitor concluir pelo título da imagem que o foco principal eram as meninas, cabe salientar que originalmente a obra era chamada de A família, reforçando a amplitude interpretativa.

Não pude deixar de ponderar se escrevendo este texto sobre metalinguagem, não estaria me valendo da metalinguística. Afinal, eu, mesmo mentindo, devo argumentar, que isto é prosa nova, que isto é muito natural.

Diário Popular, 15/07/2011.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

É possível.

Por: Clesis Crochemore, assistente social
Publicado no Diário Popular de hoje.

No dia 30 de junho de 2011 aconteceu solenidade de formatura de cursos de garçons e lanches rápidos para dez adolescentes autores de ato infracional, no Centro de Atendimento Socioeducativo - Regional Sul da Fase/RS, com sede em Pelotas. Foi um evento digno de registro e divulgação. Momento ímpar para os jovens, seus familiares, autoridades e empresários parceiros. Diante do difícil trabalho de recuperação dos adolescentes, um momento de enlace com a esperança. O que se viu naquela noite foi puro encantamento. Dez jovens vestidos a rigor, entrando em tapete vermelho, recebendo diplomas, sorridentes, aplaudidos de pé pelos presentes. Pela vez primeira, foram protagonistas e não meros espectadores. Conquista própria, pela perseverança, pelo interesse, merecedores da homenagem. E, exemplo para os demais adolescentes que cumprem medida privativa de liberdade. Trilharam o caminho do bem, com perspectiva de continuidade. Ao serem desligados da instituição, sairão com a roupa funcional, o diploma e o encaminhamento do Sine. Não se sabia, naquela noite, onde se concentrava mais elevação de autoestima, se nos jovens em recuperação, nos seus familiares orgulhosos ou dos funcionários, tantas vezes desanimados com reincidências e outras dificuldades.

A diretora da Unidade, Michelle Marques, há pouco tempo no cargo, demonstra com seu empenho na implantação, desenrolar dos cursos e no inesquecível encerramento, que compreende, sabe e faz acontecer o que tem de ser feito: elevação da autoestima destes jovens e profissionalização. Conhece a tênue linha divisória entre limite e afeto, no trato com adolescentes em geral e que não se faz diferente quando se trata dos envolvidos com a lei. A continuar assim, terá condições de superar outros entraves e transformar o atendimento ao adolescente infrator, verdadeiramente, em medida socioeducativa.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Texto de oficinando no Blog do David Coimbra, Parabéns Mário!!!

Por Mário Gayer do Amaral

Falta de Educação

Ontem, no meio de minhas pesquisas habituais, resolvi ler meus e-mails no computador e notei algo interessante em um daqueles que meu pai sempre envia pra mim.
Nele descrevia diversas situações do dia-a-dia e as reações educativas em 1959 e em 2011.
Me chamou atenção as mudanças profundas com relação a educação daqueles tempos pra cá e o exemplo que me fez ficar de queixo caído foi aquele em que o menino José caiu no chão enquanto brincava e chorava muito de dor e a professora Maria ajudou-o a se levantar e logo o consolou, dizendo que a dor logo passaria.
Em 1959, o garoto sorria pra sua professora e seguia brincando normalmente enquanto que em 2011 o garoto passaria cinco anos em tratamento psicológico, os seus pais processariam a escola e a professora por negligência, ganhando uma polpuda indenização dos dois processos e a professora renunciaria a docência, cairia em depressão profunda e se mataria.
No final do e-mail, havia uma boa pergunta: Em que determinado momento daqueles tempos nós nos tornamos tão “bostas” em relação a educação de nossas crianças?
É difícil dizer se houve um determinado momento em que a educação tornou-se tão ineficiente como agora. Creio que essa ineficiência educativa nos dias de hoje vem de uma conjunção de vários fatores como a falta de hierarquia dos alunos em relação aos professores, o medo destes de desagradar certos pais abonados, o surgimento das “babás eletrônicas” chamadas Philco, LG e Sony que são eficientes em seu trabalho e o mais grave de todos estes que é a impunidade dos atos dos filhos.
Ou, em outras palavras, “pode fazer tudo, meu filho, que não acontece nada”.
Pode fazer tudo sim, menos tolerar o próximo e honrar pai, mãe e professor.
Meus pais sempre me dizem que se tu não impor o devido respeito, as pessoas passam por cima de ti feito Panzers. E estavam absolutamente certos.
Devido a essa falta de educação, o nosso país tem hoje pais omissos, filhos despóticos e professores a beira de um ataque de nervos.
Por todos esses motivos, chego á seguinte conclusão de que a minha tia Josi é uma heroína.
Afinal de contas, não é nada fácil ser professora.

domingo, 10 de julho de 2011

sábado, 25 de junho de 2011

Falta de Educação

Por:  Mário Gayer do Amaral.
Texto publicado hoje no Diário Popular.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Entrevista na RU - Rádio UCPEL

Por Márcio Ezequiel

Clique abaixo e ouça a entrevista na Rádio da Universidade (UCPEL). Falo da Oficina, refletindo sobre os gêneros de literatura breve: crônica, conto e miniconto.

A entrevista é meio chata, mas tem bons momentos de resistência!

Parte 1

Parte 2


E finalmente a  Parte 3



quarta-feira, 8 de junho de 2011

Evolução Linguística

Por: Márcio Ezequiel
marcio_ezequiel@yahoo.com.br

 

Outro dia Enrique Villa-Matas, escritor espanhol, dizia em entrevista que a humanidade está perdendo a capacidade da linguagem. Que a simplificação da escrita nos usos da internet, por exemplo, seria indício do fenômeno. Fiquei pensando se não seria justo o que todo escritor busca? Simplificação e síntese? Qual a moral de rebuscar uma redação, tornando-a complicada, repleta de adjetivos e firulas? Claro que escrever de maneira objetiva não significa subestimar o leitor ou diminuir a mensagem em seu conteúdo. Entretanto, a redução na forma pode ser um bem inevitável. 

Alguns profetas do apocalipse linguístico chegam a anunciar mesmo o fim dos tempos verbais, pela formação de dialetos e tribos na Babilônia virtual. Outros pregam que sites, blogs e softwares de mensagens instantâneas estariam deletando a escrita escorreita de nossa formação. O universo literário acabaria numa casca de noz. Como se houvesse, inconstitucionalissimamente, uma régua magna que medisse a importância das palavras pelo seu tamanho (Freud adoraria esse papo). O Guiness mantém a famosa palavra de 27 letras que aprendemos na escola como a maior da língua portuguesa. O Wikipédia propõe outra, anticonstitucionalissimamente. O fato é que tamanho não é documento ou melhor, não é documentado, posto que tais brutamontes vocabulares não figuram em fontes jurídicas, literárias ou históricas. Não aparecem senão em registros sobre palavras compridas. Grande coisa!

E se fosse para embromar, esticaríamos mais a prosa. Que tal um neologismo? Trocando o prefixo “in” para “infra”, invento um novo palavrão português: infraconstitucionalissimamente. Seria um advérbio designando o modo de um dispositivo assaz infraconstitucional. Haveria outros nomes ainda mais feios, que por serem técnicos ou científicos, ficam fora da briga de gigantes. O nome químico para titina, maior proteína existente, contém 189.819 letras, o que extrapolaria em muito meu espaço nesta coluna. O curioso é justo essa substância ser responsável pela elasticidade em nossa musculatura. O certo é que entre sístoles pós-modernas e diástoles barrocas, o coração da literatura jamais enfarta.   

O pior reducionismo não ocorre na forma e sim no conteúdo. Estavam os antigos preocupados em discutir se suas barrinhas de argila desapareceriam com o advento do papiro? Ou se o surgimento da imprensa moderna anularia as abobrinhas manuscritas na idade média? E o e-book substituirá o livro? Que importa? Sempre teremos assunto e sempre haverá linguagem para isso. É o velho filme reprisado. Aliás, não faz muito, escrevia-se “cinematógrapho” para designar a sala de exibições da sétima arte. Logo encurtou para cinema. E chegamos a ver “cine” piscando em alguns luminosos.

E vossa mercê acaso não gerou vosmicê que depois virou você? Confessa aí! Vai dizer que nunca teclaram com... vc?

Texto publicado em:






Para visualizar a suposta maior palavra científica do mundo.
Clique aqui: http://www.sarahmcculloch.com/luminaryuprise/longest-word.php
Única fonte que encontrei.
Carece confirmação.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

NÃO VALE A PENA MORRER

Por: Liane Plá Giesel 
Meu avô que sempre foi muito econômico e organizado com os negócios, antes de morrer deixou estipulado o valor a ser gasto com seu caixão, bem como a funerária do seu gosto.
Apresentei-me à loja, em uma noite amena de novembro, acompanhada por outros familiares. De chegada fui dizendo que o valor da compra era desejo do falecido. Último desejo a gente respeita, né? Com isso também evitava o do agente funerário querendo empurrar um esquife de luxo.
Mas tivemos uma surpresa. A quantia estipulada pelo vô, desvalorizou no mercado funebre, correspondendo a um reles caixão constituído de um material que parecia um papelão.
Para resolver a pendenga foi necessário um investimento acima do previsto. Ainda teve os extras: sapatos, flores, anúncio no jornal e rádio, (quando morre o vivente merece alguma pompa). O terno, ele tinha reservado. E, apesar do corte um pouco fora de moda, caiu-lhe muito bem. Outra novidade para gastar foi uma tal mãozinha de bronze que segura um lenço preto de luto para a porta da residência. Diz que era costume antigo e que meu avô já havia utilizado quando morreu minha avó e a bisa.
O toque final foi dado com a maquiagem, incluída no pacote. Meu avô que era o típico alemão vermelho, após a maquiagem mais pareceu um carioca em pleno verão.
Tempos depois notei que só o valor do ataúde valia mais do que meu carro. Ok, ok , meu carrinho é velho, tem pra lá de vinte anos e não é Fusca. Mas tá inteiro e me carrega pra todo lugar. Já o tal caixão...
Para finalizar contabilizo:
Sapatos, terno, flores, velas, coveiros, a mãozinha lá da porta.
Total: Uma pequena fortuna.
Morrer nos sai caro.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Meus Medos...

                  Por: Isabel C.S.Vargas
                  icsvargas@gmail.com


Sempre fui uma pessoa cheia de medos. Na infância tinha medo da morte. Não medo de morrer, mas de fazer parte de um cenário que me atemorizava. Sentia-me protagonista, ou coadjuvante de uma peça teatral lúgubre. Naquela época, os velórios ocorriam na residência do finado. Logo, as salas se transformavam em capelas com todos os aparatos e velava-se o falecido por 24 horas. Quantos anos decorriam e não apagávamos da memória aquela cena. Um evento extremamente doloroso para adultos, no imaginário infantil tinha o peso multiplicado. Como entrar naquela peça depois sem enxergar o parente falecido?
Havia uma simbologia tétrica em tudo aquilo. Pendurava-se na porta da casa, ou ao lado dela, uma mão de bronze, com um tule roxo. Enxergava-se à distância. Era como se o morto estivesse querendo te pegar pela mão. Rezei durante anos para que não morresse alguém enquanto morássemos naquela casa, para não ter que passar por aquela difícil situação ou ao menos que não ocorresse enquanto eu ainda fosse criança. Antecipava o Estatuto da Criança na minha cabeça de menina. A velha ideia de que ao crescer os medos desaparecem.
Poderia discorrer mais sobre esse medo comum, mas não iria sobrar crônica para os outros. Então, vamos adiante. Havia outros medos. Medinhos. Nada trágicos. Nada infantis. Será que não?
Andar de avião. Esse, graças a Deus, superado! Ufa! Se possível, andaria todos os meses. Ruim é  rodar três horas de carro até o aeroporto. Nem tanto ao céu, nem tanto à água.  Já tive muito medo de água. Mas tenho progredido. Dei um passo à frente no que tange a essa onda que nos engole em uma só tragada. Já andei de jangada, de lancha. Só tem uma coisa que ainda não consegui faze na águar. Nadar. Não consigo tirar o pé do chão e me soltar. Ficar livre como um peixe. Não teve milagre terapêutico ou terapeuta milagroso para me soltar. Sou da terra. Por isso mesmo que digo que "ando de avião", "ando de jangada", "ando de lancha". O pezinho fica ali, firme no assoalho.
Talvez, eu tenha é medo de perder a cabeça, o controle, sei lá! É isso!!! Controle. Preciso ter o controle de mim mesma. Saber onde piso. Não é à toa que em família me chamam de comandante, quisera eu, mas na verdade isso tudo envolve o velho medo de perder alguém. É a mãozinha de bronze lá na antiga casa que ainda acena com um tule seco.





domingo, 15 de maio de 2011

É de morte!!!

Antes que alguém pergunte, explicamos. A primeira atividade do grupo era escrever uma crônica sobre a morte. Por isso o tema se repete. Mas logo teremos outros trabalhos postados por aqui. Enquanto a vida segue, publicamos mais uma contribuição de morte.

Máscara Mortuária

                                                  Por: Maria Izabel Marini Arndt
 
Decididamente os defuntos não são mais os mesmos. Nem os  velórios... Nem melhores, nem piores, apenas diferentes.
Me aproximo do caixão. Quase não a reconheço: base, sombra , batom, de tons suaves, é verdade, mas base, sombra e batom.
Justamente ela, que nunca se maquiava, lá estava: em vez da palidez da vida, o rosado da morte;  do cinzento do inverno, o colorido do verão;  das velas de sebo e calor, as lâmpadas inodoras e assépticas.
Descubro naquele momento por que as pessoas  têm saído mais confortadas dos funerais. É que ficam encantadas com a expressão serena de seus mortos. Hoje, mais do que nunca, parecem estar dormindo. Parecem felizes com seu  próprio fim...
De primeiro, o luto era mais longo e por muito tempo não se podia ouvir música. Hoje se ouvem e até cantam músicas nos velórios. Seja para homenagear os mortos, seja para fazer chorar os vivos. Afinal, não temos mais carpideiras...
Antigamente não bastava viver o luto, era preciso mostrar aos outros que o vivíamos. Por isso, as lapelas pretas nas camisas e o fumo roxo nas portas.  Fiquei pensando enquanto tentava uma oração: o que ela diria? Recusaria a máscara? Ou estaria feliz com a transgressão dos próprios limites e conceitos construídos?
Estranhos seres os humanos. Precisam preservar a imagem  a  qualquer preço. Negam a fragilidade e a finitude da vida até na hora da morte.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Evangelho segundo Ezequiel

Por: Márcio Ezequiel
marcio_ezequiel@yahoo.com.br
Fonte: Diário Popular



Não entendia completamente por que estava ali. Não duvidava, contudo, que chegada era a hora. O lugar também estava certo. Tudo se mostrava pronto. A seara, madura. Os lírios, lindamente vestidos. Os pássaros, alimentados. O coro de pedras, afinado. Não poderia evitar mesmo que quisesse. Foi para isso que viera. Carregaria toda a culpa.
Era o que autorizava prosseguir segundo o ditame profético. Consciência e razão, todavia, não se faziam consensuais em seus arrazoados conscienciosos. Repetia mentalmente o pão, o peixe e o vinho. O pão, o peixe e o vinho... Oferta de viúva pobre. Havia de cumprir sua sina e onde contassem o que ocorreu, haveria memória sua. 
Oh, cálice intragável. Transbordante. Canção de bêbados. Deitou-se suavemente sem dizer nenhuma palavra. O suor escorreu em grandes gotas até o chão. Um corpo entregue. Transpassado. Sacrifício vivo oferecido a todos na roda dos escarnecedores. Ladrões, doutores da lei, cobradores de impostos e prostitutas. No beijo da perfídia, indagou-se sobre o preço que valia seu corpo. Um pedaço de pão ao menos? Um copo de água? O silêncio foi a única resposta. O silêncio é sempre a única resposta. O silêncio é sempre a única resposta esperada. E o eco no jardim se encarregará de dizer tudo de novo. Vinagre e fel. Nada demais. Acostumar-se-ia ao acérrimo gosto da humanidade. E, inclinando a cabeça, entregou sua alma em seco suspiro, de uma vez por todas. Por um só homem o pecado entrou na vida de todos. E haveria de ser perdoado por um só coração. Rasgou-se o véu de cima abaixo. O caminho não é somente estreito. É longo. Ao abismo desceu sem companhia. Mas agora vive e subiu aos mais altos arranha-céus. Conheceu reinados em glória e decadência. Visitou Guernica em prantos. Viu cruzes voando pelo firmamento. Correu por todos os campos de batalha do velho mundo e de fato, só há um velho mundo velho. Correu até não mais poder e uma lança penetrou-lhe o espírito, fazendo verter o sangue inocente. Como água derramou-se por ossos desconjuntados e, em harmonia geométrica, desfez-se. Derreteu como uma vela, seu papel de criança. De superstar. De ativista. De pacifista. De alguém deitado no canto frio esperando por resposta. Um eco de silêncio dos Jardins do Éden, da Babilônia e do Getsêmani foi a resposta.
E agora, terceiro dia? Até quando? Até quando esperar? Até quando esperar a fome acabar? Até quando pronunciar o amor em vão? Até quando mentir? Até quando trair? Até quando roubar? Até quando ofender pai e mãe? Até quando matar? Até quando o mistério? Até quando a violência? Até quando a terra sem sal? Até quando a pobreza de espírito? Até quando a impunidade e a sede de justiça?
Quando despertará o juízo de sua esplêndida tumba? Quando chegará o perdão? Quando chegará o castigo? Estamos cansados. Estamos cansados porque é sexta. Estamos cansados porque logo é sábado e não descansaremos mais uma vez. Estamos cansados porque depois de amanhã é Páscoa! Estamos cansados há muito tempo. Somos aquele homem dependurado há dois mil anos.
Somos a mesma pessoa. Esta é a nossa genealogia. Filhos de Da Vinci, discípulo de Jesus. Filhos de Isaac Newton. De Platão e dos gregos. Filhos de Abraham Lincoln, que era filho de Jeová, irmão de Bob, filho de Jah e primo de Jorge e Iemanjá. Filhos de Amadeus. De Bach. De Joana D'Arc. Somos descendentes diretos de Aaron, que gerou John e Paul, João Paulo e tantos Pablos, Picasso, Neruda. Irmãos de Tereza e Dulce. Somos sobrinhos de Olga, irmãos do Betinho e filhos de Eva, que gerou outras Marias e Clarices, filhas de Gandhi. Somos da linhagem de Mandela, de Mama África. Somos irmãos de Lutero e Martin Luther. De Martin e Lewis. De Lévi-Strauss. De Engles e Marx que gerou Groucho, que gerou Allen. Somos descendentes de Maomé, que estava junto ao profeta Ezequiel, quando viram um disco voando no meio do céu, anunciando que tudo estava consumado.