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sábado, 16 de julho de 2011

Sobre a meta-escrita

Semana passada, na nossa oficina, arrisquei falar em metalinguagem. A dificuldade para apresentar o conceito é quase uma redundância. Quer ver? Metalinguagem é um tipo de linguagem que explica a própria linguagem. Hein? É expressar alguma coisa sobre o meio de expressão pelo qual se expressa essa mesma coisa. Enrolado, né? Pois é assim. O palavreado se dobra sobre si para desdobrar o próprio palavreado - com o devido cuidado para não enrolar a língua.

Na literatura pós-moderna de nossos dias os escritores têm uma predileção por tratar da construção do texto no próprio texto. Machado de Assis foi precursor no uso da técnica. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no capítulo sobre as ideias fixas, o autor dialoga sobre a obra ao longo dela. “Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias.” Mais adiante sugere a frustração do protagonista, deixando um capítulo em branco. “Há coisas que melhor se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior.” Concorda, leitor?

Nas outras artes também temos boas aplicações. Quando o ator olha para a câmera e fala com o espectador sobre o filme, trata-se de metalinguagem. A rosa púrpura do Cairo, de Woody Allen, segue como bom exemplo. Quando João Gilberto canta "se você disser que eu desafino, amor..." além de desafinar pra dedéu, canta senão a metalinguagem.

AS MENINAS - DIEGO VELAZQUEZ
  Clique na imagem e veja versão de Picasso.
Na pintura há estudos bem intrigantes. O famoso quadro As meninas (1656), de Diego Velázquez, é fabuloso ao discutir-se na própria obra. Ao centro, de frente, figura a infanta Margarida Teresa de Habsburgo, filha do rei da Espanha, com suas damas de companhia, ensejando o título. À esquerda, em autorretrato, Velázquez aparece pintando uma tela virada, que não nos permite ver o que o artista imortaliza. Seu olhar é frontal, diretamente para nós, ou seja, para fora do quadro. Na parede ao fundo, um espelho mostra o reflexo do rei e da rainha, para além dos limites da moldura, apontando, segundo alguns historiadores o assunto retratado. Tá entendendo? Outra interpretação devolve as meninas ao papel central do quadro e o casal real estaria como observador da cena. Se o leitor concluir pelo título da imagem que o foco principal eram as meninas, cabe salientar que originalmente a obra era chamada de A família, reforçando a amplitude interpretativa.

Não pude deixar de ponderar se escrevendo este texto sobre metalinguagem, não estaria me valendo da metalinguística. Afinal, eu, mesmo mentindo, devo argumentar, que isto é prosa nova, que isto é muito natural.

Diário Popular, 15/07/2011.

domingo, 10 de julho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Evolução Linguística

Por: Márcio Ezequiel
marcio_ezequiel@yahoo.com.br

 

Outro dia Enrique Villa-Matas, escritor espanhol, dizia em entrevista que a humanidade está perdendo a capacidade da linguagem. Que a simplificação da escrita nos usos da internet, por exemplo, seria indício do fenômeno. Fiquei pensando se não seria justo o que todo escritor busca? Simplificação e síntese? Qual a moral de rebuscar uma redação, tornando-a complicada, repleta de adjetivos e firulas? Claro que escrever de maneira objetiva não significa subestimar o leitor ou diminuir a mensagem em seu conteúdo. Entretanto, a redução na forma pode ser um bem inevitável. 

Alguns profetas do apocalipse linguístico chegam a anunciar mesmo o fim dos tempos verbais, pela formação de dialetos e tribos na Babilônia virtual. Outros pregam que sites, blogs e softwares de mensagens instantâneas estariam deletando a escrita escorreita de nossa formação. O universo literário acabaria numa casca de noz. Como se houvesse, inconstitucionalissimamente, uma régua magna que medisse a importância das palavras pelo seu tamanho (Freud adoraria esse papo). O Guiness mantém a famosa palavra de 27 letras que aprendemos na escola como a maior da língua portuguesa. O Wikipédia propõe outra, anticonstitucionalissimamente. O fato é que tamanho não é documento ou melhor, não é documentado, posto que tais brutamontes vocabulares não figuram em fontes jurídicas, literárias ou históricas. Não aparecem senão em registros sobre palavras compridas. Grande coisa!

E se fosse para embromar, esticaríamos mais a prosa. Que tal um neologismo? Trocando o prefixo “in” para “infra”, invento um novo palavrão português: infraconstitucionalissimamente. Seria um advérbio designando o modo de um dispositivo assaz infraconstitucional. Haveria outros nomes ainda mais feios, que por serem técnicos ou científicos, ficam fora da briga de gigantes. O nome químico para titina, maior proteína existente, contém 189.819 letras, o que extrapolaria em muito meu espaço nesta coluna. O curioso é justo essa substância ser responsável pela elasticidade em nossa musculatura. O certo é que entre sístoles pós-modernas e diástoles barrocas, o coração da literatura jamais enfarta.   

O pior reducionismo não ocorre na forma e sim no conteúdo. Estavam os antigos preocupados em discutir se suas barrinhas de argila desapareceriam com o advento do papiro? Ou se o surgimento da imprensa moderna anularia as abobrinhas manuscritas na idade média? E o e-book substituirá o livro? Que importa? Sempre teremos assunto e sempre haverá linguagem para isso. É o velho filme reprisado. Aliás, não faz muito, escrevia-se “cinematógrapho” para designar a sala de exibições da sétima arte. Logo encurtou para cinema. E chegamos a ver “cine” piscando em alguns luminosos.

E vossa mercê acaso não gerou vosmicê que depois virou você? Confessa aí! Vai dizer que nunca teclaram com... vc?

Texto publicado em:






Para visualizar a suposta maior palavra científica do mundo.
Clique aqui: http://www.sarahmcculloch.com/luminaryuprise/longest-word.php
Única fonte que encontrei.
Carece confirmação.